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Tecnoboiuna: calipsando a Amazônia.
Vânia Leal

O artista paraense PV Dias apresenta uma proposta interessante,ao buscar explorar as relações culturais e sonoras entre o Norte do Brasil eoutras regiões da Amazônia e até do Caribe. O resultado dessa proposição foiselecionado para a 33 edição do Programa de Exposições do Centro CulturalSão Paulo, no projeto intitulado “Rádios-Cipós”, que consiste numa série depinturas e em uma escultura em madeira e plástico, chamada “Cobra GrandeSoundsystem”.

 

Este projeto parte de uma pesquisa realizada sobre as ondas de rádio que chegaram em terras paraenses no século passado, trazendo novos elementos estéticos e musicais - os quais se misturaram com as tradições locais, originárias da diáspora africana e dos povos originários. Como meiode expressar os conhecimentos e vivências, o artista utiliza a pintura e a escultura, criando um universo poético, político e colorido, presente no imaginário amazônico.

 

É interessante refletir sobre qual seria o público-alvo e o objetivocomunicativo que o artista definiu. O que ele busca transmitir ou provocar? Para explorar esses horizontes, também é preciso se aprofundar noreferencial teórico e crítico de PV, buscando dialogar com outros artistas e movimentos que tenham trabalhado temas ou linguagens semelhantes aosseus.

 

Neste projeto, o paraense propõe uma série de pinturas e uma escultura modular, que pode ter vários posicionamentos,mas precisa definir critérios para essa variação e para a relação entre as obras. Da mesma forma, precisa considerar aspectos como a iluminação, o som, a interação, a acessibilidadee a segurança das obras, prevendo problemas técnicos ou de conservação- detalhes que poderiam prejudicar a apresentação. Na minha percepção, o público-alvo do artista são todas as pessoas que se interessam pela cultura epela arte da Amazônia, especialmente pelo movimento tecnobrega e música popular paraense. Além disso, o próprio projeto busca atingir as pessoas que não conhecem ou que têm uma visão estereotipada sobre a região Norte do Brasil.

 

O som do tecnobrega é considerado uma marca da identidade cultural local, assim como o carimbó. Este fenômeno cultural pode ser vistonas festas de aparelhagens, quando o povo paraense vibra com as mãos parao alto “endoidando”, como se fala na linguagem conterrânea. O tecnobrega está por todo lugar com o embalo eletrizante, contagiante, vibrante, futurista e tecnológico das canções que não deixam ninguém parado. Quanto aoobjetivo comunicativo acredito que seja informar, sensibilizar, questionar, denunciar e celebrar alguns aspectos da realidade que o artista retrata, explorando a estética tecnobrega. Este é um ritmo musical que mistura elementos do brega romântico e da música eletrônica, tocado em festaspopulares a partir do final dos anos 1990 e com grande sucesso nos anos 2000.

 

O escritor e historiador de arte, Aldones Nino, detalha que as radiolas maranhenses, referenciadas pelo artista são inspiradas nas sound systems jamaicanas, que são grupos de DJs, engenheiros de som e MCs que tocam ska, rocksteady ou reggae em festas de rua, que surgiram na década de1950 e se tornaram uma forma de expressão e resistência da cultura negra epopular. As diferenças e semelhanças entre essas referências representam formas de expressões musicais, visuais e culturais de diferentes regiões e países que têm em comum a valorização da identidade regional, da criatividade artística e da resistência dos povos marginalizados.

 

É interessante frisar que as ondas de rádio e as rádios piratas na Amazônia figuram na história que remonta à década de 1950. Ainda citando uma pesquisa do historiador Nino, na década de 1970, os grupos políticosde esquerda e associações estudantis usaram as rádios piratas como formade protesto contra o regime militar e o monopólio estatal na radiodifusão. Nos anos de 1980, o movimento ganhou força e diversidade, com rádios que tocavam ritmos afro-latino-caribenhos como reggae, merengue, lambada, rock, calypso, e brega. Já na década de 1990, com a mobilização de DJs que desejavam viabilizar os trabalhos de estúdio barateando a produção, “surgiuo tecnobrega, a versão eletrônica e acelerada do brega romântico aos swings do merengue, calypso, guitarrada e carimbó”, sinaliza a jornalista LydiaBarros, que escreveu um artigo intitulado “Tecnobrega, entre o apagamentoe o culto”.

 

A partir disso, posso dizer que a estética deste projeto do PV Diasé um caleidoscópio cultural, uma bricolagem amazônica quente, saturada, sonora e dançante. Na qual a cobra é um som com cor e movimento, e o movimento, por si só, é um redemoinho da “ninfa Calipso” que causa tremores na batida da aparelhagem.

Texto publicado em 2024, no catálogo da exposição Rádios-Cipós,selecionada para o 33 Programa de Exposições do CCSP.

Tecnoboiuna: calypsing the Amazon.

Vânia Leal

The artist from Pará, PV Dias, presents an interesting proposal, seeking to explore the cultural and sound relations between the North of Brazil and other regions of the Amazon and even the Caribbean. The result of this proposal was selected for the 33rd edition of the Exhibition Program of the São Paulo Cultural Center, in the project entitled “Rádios-Cipós”, which consists of a series of paintings and a sculpture in wood and plastic, called “Cobra Grande Soundsystem”.

This project is based on research carried out on the radio waves that reached Pará in the last century, bringing new aesthetic and musical elements - which were mixed with local traditions, originating from the African diaspora and the indigenous peoples. As a means of expressing knowledge and experiences, the artist uses painting and sculpture, creating a poetic, political and colorful universe, present in the Amazonian imagination.

It is interesting to reflect on who the target audience and the communicative objective that the artist defined would be. What does he seek to convey or provoke? To explore these horizons, it is also necessary to delve deeper into PV's theoretical and critical framework, seeking to engage in dialogue with other artists and movements that have worked on themes or languages ​​similar to his.

In this project, the artist from Pará proposes a series of paintings and a modular sculpture, which can have several positions, but he needs to define criteria for this variation and for the relationship between the works. Likewise, he needs to consider aspects such as lighting, sound, interaction, accessibility and the safety of the works, anticipating technical or conservation problems - details that could harm the presentation. In my opinion, the artist's target audience is all people who are interested in the culture and art of the Amazon, especially the tecnobrega movement and popular music from Pará. In addition, the project itself seeks to reach people who are unfamiliar with or have a stereotypical view of the northern region of Brazil.

The sound of tecnobrega is considered a mark of local cultural identity, just like carimbó. This cultural phenomenon can be seen at sound system parties, when the people of Pará celebrate with their hands up in the air, “going crazy”, as they say in the local language. Tecnobrega is everywhere with the electrifying, contagious, vibrant, futuristic and technological beat of the songs that keep everyone moving. As for the communicative objective, I believe it is to inform, raise awareness, question, denounce and celebrate some aspects of the reality that the artist portrays, exploring the tecnobrega aesthetic. This is a musical rhythm that mixes elements of romantic brega and electronic music, played at popular parties from the late 1990s onwards and with great success in the 2000s.

Writer and art historian Aldones Nino explains that the Maranhão radio stations referenced by the artist are inspired by Jamaican sound systems, which are groups of DJs, sound engineers and MCs who play ska, rocksteady or reggae at street parties, which emerged in the 1950s and became a form of expression and resistance for black and popular culture. The differences and similarities between these references represent forms of musical, visual and cultural expression from different regions and countries that have in common the appreciation of regional identity, artistic creativity and the resistance of marginalized peoples.

It is interesting to note that radio waves and pirate radio stations in the Amazon have a history that dates back to the 1950s. Still citing research by historian Nino, in the 1970s, left-wing political groups and student associations used pirate radio stations as a form of protest against the military regime and the state monopoly on broadcasting. In the 1980s, the movement gained strength and diversity, with radio stations playing Afro-Latin-Caribbean rhythms such as reggae, merengue, lambada, rock, calypso, and brega. In the 1990s, with the mobilization of DJs who wanted to make studio work viable by reducing production costs, “tecnobrega emerged, the electronic and accelerated version of romantic brega with the swings of merengue, calypso, guitarrada and carimbó”, points out journalist Lydia Barros, who wrote an article entitled “Tecnobrega, between erasure and worship”.

From this, I can say that the aesthetics of this PV Dias project is a cultural kaleidoscope, a warm, saturated, sonorous and danceable Amazonian bricolage. In which the snake is a sound with color and movement, and the movement, in itself, is a whirlwind of the “nymph Calypso” that causes tremors in the beat of the sound system.

Text published in 2024, in the catalog of the Rádios-Cipós exhibition, selected for the 33rd CCSP Exhibition Program.

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