Breve análise de ‘Noite de Pau e Corda’
Gabriel Borges Souza
Se os vestígios do passado, entre objetos e documentos, têm enorme valia para pesquisadores e, sobretudo, para os historiadores na busca de contar narrativas que há muito ficaram silenciadas, ao que parece, na obra de PV Dias (Belém do Pará, 1994) tais vestígios também ganham centralidade, não apenas em suas pesquisas, mas também em seu imaginário criativo.
Na individual que ficou aberta entre fevereiro e março deste ano, na Galeria Verve, em São Paulo, chamou-me a atenção o conjunto de obras que formou o núcleo intitulado “Noite de Pau e Corda”. Para os paraoras, o título da mostra é familiar, embora possa soar um pouco adverso para quem é de fora. Algo que rapidamente se dissipa no momento de fruição das obras, em que instantaneamente somos imersos em uma roda de carimbó com todas as suas nuances.
Para além das composições das obras com cores vibrantes e de clima noturno, ganha destaque o cruzamento que Dias realiza entre passado e presente, história e arte, além da musicalidade. Penso que, para nós, moradores de cidades amazônicas, os primeiros sons de encantamento que ouvimos são os cantos dos pássaros e o farfalhar das copas das árvores. E o carimbó, de forma elementar, como manifestação cultural e musical popular, carrega tudo isso e muito mais.
Mas o núcleo que Dias apresenta revela mais camadas do que o mero encantamento musical ou o festejo popular. A Noite de Pau e Corda que PV nos traz carrega, além disso, uma dimensão de denúncia e sutis problematizações sobre o presente.
Segundo Marina Schiesari (2025), na mostra, “o artista nos transporta para um episódio de prisão em flagrante ocorrido em 1900, durante uma noite na casa de Antônio Moraes, tocador de carimbó — ritmo e dança de origem afro-indígena, celebrado no atual Pará —, proibido em determinado momento pelo Estado sob o pretexto de ‘promover desordem pública’.”
Casos como este eram recorrentes e amplamente denunciados nas páginas dos jornais da época. Fugindo da parcialidade, as manifestações populares também conquistaram — ainda que de forma tímida — algum destaque em colunas como a “Typos Populares”, assinada por Zé Povinho (pseudônimo de João de Deus do Rêgo), veiculada no jornal Folha do Norte naquele mesmo período.
Inspirando-se nos vestígios do passado, Dias apresentou, em seu núcleo artístico da cultura popular, a resistência daqueles que estavam sob constante vigilância. No conjunto das obras, na tela de maiores proporções, podemos observar que o festejo acontece em um casebre humilde, onde a carimboleira roda sua saia e os músicos rufam seus batuques. Chama a atenção a mesa virada, possível alusão à violência opressiva dos representantes do Estado, sempre empenhados em acabar com as festas do povo. No jornal sob a mesa, a manchete “Pau e Corda” ganha destaque, subvertendo o preconceito da imprensa da época retratada.
As obras de menores proporções chamam a atenção para o presente, sobretudo para a questão racial e para as formas de opressão que a população negra sofreu e ainda sofre atualmente. Em Dias, notamos o tocador de maraca se escondendo debaixo de uma mesa, além dos olhares desconfiados dos tocadores de flauta e de curimbó.
Com sutileza sugestiva, o artista nos convida a refletir: entre o ontem e o hoje, será que corpos negros podem se reunir, festejar e celebrar sem que a opressão ou a vigilância social — velada ou explícita — continue a oprimi-los?
Na tela em que um homem negro faz um gesto solicitando silêncio, podemos refletir que os efeitos dos racismos funcionam como atravessamentos negativos que sempre permearam as práticas culturais de pessoas racializadas em determinados momentos de nossa história, reverberando ainda no presente.
No autorretrato, o artista surge anotando tudo, registrando sua própria denúncia social, em oposição àquela da ordem vigente.
A Noite de Pau e Corda, de PV Dias, constitui um núcleo artístico que simboliza a resistência cultural de pessoas negras subalternizadas do Norte do país. Podemos nos questionar: de outrora ou de agora?
A relevância desses trabalhos estão nos contornos possíveis, nas agências, onde através da história social e da arte instigante de artistas como Dias, podemos ressaltar e colocar em destaque que mesmo oprimidas, vigiadas e, quase sempre, punidas, essas pessoas lutavam pelo direito de celebrar, festejar e simplesmente existir.
Referências :
SILVA, Edilson Mateus Costa da. Carimbós de Belém no séc. XIX. Kwanissa: Revista de Estudos Africanos e Afro-Brasileiros, São Luís, v. 3, n. 6, p. 156–171, jul./dez. 2020. Disponível em: Periódicos Eletrônicos UFMA. Acesso em: 17 set. 2025.
SCHIESARI, Marina. Que Tenhas o Corpo - Noite de Pau e Corda. PV Dias, 2025. Disponível em: https://www.pvdias.com/que-tenhas-o-corpo-noite-de-pau-e-corda. Acesso em: 17 set. 2025.
Brief Analysis of Nightof Strings and Wood
Gabriel Borges Souza
If the traces of the past — among objects and documents — hold immense value for researchers and, above all, for historians seeking to tell long-silenced narratives, in the work of PV Dias (Belém do Pará, 1994) such traces also take on a central role, not only in his research but in his creative imagination.
In his solo exhibition held between February and March this year at Galeria Verve, in São Paulo, what caught my attention was the group of works forming the nucleus titled Noite de Pau e Corda (“Night of Strings and Woods”). For people from Pará, the title is familiar, though it may sound strange to outsiders — something that quickly fades once the viewer engages with the works, instantly immersed in a carimbó dance circle with all its nuances.
Beyond the vibrant, nocturnal compositions, Dias stands out for his crossings between past and present, history and art, as well as his use of musicality. For those of us who live in Amazonian cities, the first enchanting sounds we hear are the songs of birds and the rustling of treetops. Carimbó, as a popular Afro-Amazonian cultural and musical manifestation, embodies all of this and more.
Yet the nucleus presented by Dias reveals more layers than mere musical enchantment or popular celebration. The Noite de Pau e Corda that PV presents carries within it an element of denunciation and subtle reflections on the present.
According to Marina Schiesari (2025), in the exhibition “the artist transports us to an episode of arrest that took place in 1900, during a night at the house of Antônio Moraes, a carimbó player — a rhythm and dance of Afro-Indigenous origin celebrated in today’s Pará —, which was at one time banned by the State under the pretext of ‘promoting public disorder.’”
Cases like this were recurrent and widely reported in newspapers of the time. Popular manifestations also found, albeit timidly, a space in columns such as Typos Populares, signed by Zé Povinho (pseudonym of João de Deus do Rêgo), published in Folha do Norte during that same period.
Drawing from these historical traces, Dias’s body of work brings forth the resistance of those who lived under constant surveillance. In the largest painting, the celebration unfolds in a modest hut, where a carimbó dancer twirls her skirt as musicians beat their drums. A flipped table draws attention, possibly alluding to the oppressive violence of State representatives, ever eager to suppress the people’s festivities. On the newspaper under the table, the headline Pau e Corda stands out, subverting the prejudiced tone of the press of that era.
The smaller works turn our gaze toward the present, particularly to racial issues and the forms of oppression that Black populations have suffered and continue to endure. Dias portrays a maraca player hiding under a table, and the wary expressions of the flute and curimbó players.
With evocative subtlety, the artist invites reflection: between then and now, can Black bodies gather, celebrate, and rejoice without social oppression or surveillance — whether covert or explicit — still weighing upon them?
In one painting, a Black man gestures for silence, prompting us to consider how the effects of racism continue to pervade the cultural practices of racialized people throughout history, reverberating into the present.
In his self-portrait, the artist appears writing everything down, recording his own social denunciation in opposition to the prevailing order.
Noite de Pau e Corda, by PV Dias, constitutes an artistic nucleus that symbolizes the cultural resistance of Black, marginalized people from northern Brazil. We might ask ourselves: are these struggles from the past, or are they still unfolding today?
The relevance of these works lies in their possibilities and agencies — through the lens of social history and the provocative art of artists like Dias, we can highlight that even when oppressed, watched, and often punished, these people fought for the right to celebrate, to rejoice, and simply to exist.
References:
SILVA, Edilson Mateus Costa da. Carimbós de Belém no séc. XIX. Kwanissa: Revista de Estudos Africanos e Afro-Brasileiros, São Luís, v. 3, n. 6, p. 156–171, jul./dez. 2020. Disponível em: Periódicos Eletrônicos UFMA. Acesso em: 17 set. 2025.
SCHIESARI, Marina. Que Tenhas o Corpo - Noite de Pau e Corda. PV Dias, 2025. Disponível em: https://www.pvdias.com/que-tenhas-o-corpo-noite-de-pau-e-corda. Acesso em: 17 set. 2025.